“Hum… Ótimo! Restaurante cheio hoje! Bem que me falaram que a crítica negativa daquele jornalistinha de merda só iria aumentar meu movimento! Ótimo, ótimo! Oh, o deputado apareceu! Maravilha! Vou até lá cumprimentá-lo. E que loiraça ele trouxe! Bem melhor do que a cara-de-bunda da mulher dele. É… Vou largar esse negócio de restaurantes e virar político. Ao menos posso comer umas beldades dessas. Merda! Aquela socialite chata de novo! Insuportável ter que sorrir pra essa mulher! E está com mais um dos seus gigolôs novinhos. Pouca vergonha! Mas ao menos ela consome muito. Gorda assim… Vou lá na cozinha ver se está tudo bem. O novo chef é meio difícil, mas é competente e é o que me importa. Que porra de barulho foi esse? O que está acontecendo? Puta que o pariu! Não acredito que aquela garçonete imbecil derrubou vinho na loira do deputado! E meu vinho mais caro! Chega! Foi a gota d’água! Vou despedir essa cretina agora mesmo! Rua!”.

“Lá vem o dono com aquele sorrisinho amarelo me agradecer mais uma vez por freqüentar esta espelunca depois das críticas. Mas tá muito interessado na minha loira! Merda, eu sabia que era melhor um lugar mais reservado, mas ela insistiu tanto… E o que um deputado não faz pra agradar seu eleitorado? Ou melhor, um homem pra comer uma mulher? Vai cumprimentar a socialite, cara! Isso! Vá embora e me deixe fazer meu jogo pra arrastar essa gostosa pro motel. Vou pedir o vinho, o mais caro da adega, sei que ela gosta é de ver dinheiro. E o que me importa? Quero mais é aproveitar que minha mulher viajou pra ficar com a cobra da minha sogra no hospital e garantir minha noite! Eu sabia que o pedido do vinho faria sucesso. Essa mulher tá no papo! Só não posso me esquecer de vestir eu mesmo a camisinha. Não tô a fim de ser chantageado por nenhuma vigarista com o golpe da barriga. Não! Essa aí vai ser uma noite boa de diversão, sem a garantia de dor de cabeça depois e… Que merda é essa? Isso é mesmo uma espelunca! Em que tipo de restaurante o vinho vai parar na roupa do cliente? Porra! Lá se foi minha noite por água a baixo”!

“Preciso agradecer à Ana por ter roubado esse vestido da patroa dela. Tenho que ter o máximo de cuidado pra devolvê-lo amanhã. É perfeito e teve exatamente o efeito que eu queria: todos os olhares! Onde está o Hugo? Achei! Não ria, Amanda! Se controle pra não rir da cara dele agora que te viu com o deputado. Idiota! Se achava que ia me trocar por uma socialitezinha de merda e ficar tudo bem, tá muito enganado. Há muitas vantagens em ser mulher, meu caro. Uma delas é chamar atenção de homens ricos e poderosos como um político. Qual é mesmo o nome dele? Ah! E daí? Só quero garantir que o Hugo veja quem está comigo. Minha armação pra descobrir onde viriam foi perfeita, mas melhor ainda foi minha ‘habilidade’ em trazer o deputado até aqui. Oh, Deus! Novamente, obrigada pelas minhas curvas! O que uma mulher não consegue? Nossa, que perua velha! Como o Hugo pôde trocar um mulherão como eu por uma coroa gorda? Sei que a coroa gorda é rica, mas também chegarei lá! Com esse corpo posso arranjar um bom velho pra dar aquele golpe! Mas este deputado está fora de cogitação! Que sujeito asqueroso! E está realmente pensando que vai me comprar com esse vinho caro e essa conversa mole. Ah, coitado! Se acha que vai me levar pro motel hoje está muito enganado, meu querido! Nem hoje e nem nunca! Hugo está vendo? Ah, é claro que está! Ele não desgruda os olhos de mim! Eu sei que ainda me ama… Otário! Ah! Não acredito! Essa mulher derrubou vinho tinto no meu vestido! E o imbecil do Hugo vendo tudo! E agora? Como vou pagar por isso? Não tenho dinheiro nem pra calcinha que tô vestindo! Ah, eu mato essa vadia! Ela vai me pagar cada centavo! Oh, Deus! Estou perdida! O vestido branquinho da patroa da Ana”…

“O bom de ter contatos é poder conhecer as socialites solitárias. A grana anda curta e trabalhar nem pensar! Melhor dar umazinha com a coroa e conseguir alguns trocados. E sei bem como fazer isso, é minha especialidade! Só dobrar a velha e… Mas o que é isso? O que a Amanda tá fazendo aqui? Quem tá com ela? Merda! Odeio esses restaurantes metidos a chique em que o dono vem conversar com os clientes! E aposto que odeia essa gorda tanto quanto eu. Sai da frente, porra! Não acredito! É aquele deputado de merda! Ah, Amanda! Veio aqui de propósito, eu sei! Te conheço e não é de hoje, vigarista! Mas se acha que vai me provocar ciúmes tá muito enganada. Antes de acabar com a minha noite, acabo com a tua, vagabunda! Não vai pra cama com deputadinho nenhum, não! Você é minha, bandida! Preciso dar um jeito nisso. Aquela garçonete está indo para a mesa deles? É minha chance! Perfeito! Ótima trombada! O vinho caiu todinho no vestido da vadia. Isso é pra você aprender a não me provocar, vigarista”!

“Ai, Deus, proteja meu filho! Detesto deixá-lo em casa doente, mas se não viesse trabalhar hoje, certamente seria demitida. E preciso tanto desse emprego… O chefe é insuportável, mas o pagamento é bom e preciso manter meu filho na escola, ele tem que ter um futuro melhor do que o meu. Sei que meu trabalho é decente e honesto, mas ele merece ser o médico que tanto sonha… Será que ele está bem? Será que a febre baixou? Assim que tiver uma folga aqui vou dar uma escapadinha pra ligar pra casa. E vai ser tão difícil hoje, o restaurante está tão cheio… Mas preciso dar um jeitinho! Estou preocupada demais, daqui a pouco o chefe reclama que estou lenta. Melhor eu ligar logo. Vou só deixar o vinho na mesa e… Oh, não! Não acredito que o rapaz me empurrou! O vinho caiu todinho no vestido da moça! Oh, Deus! É agora que vou ser demitida! Não! Por que eu? O que vou fazer agora? Meu filho”…

 

Stéfanie Rhoden

Este texto escrevi para ser publicado no meu antigo blog Infamidades, em 19/04/08. Hoje apenas fiz algumas correçõezinhas.

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