Quem nunca pegou piolho que atire a primeira pedra! Essa praga atinge milhares de crianças e adultos no mundo inteiro e todos já teveram ao menos uma vez na vida.

Uma das 10 pragas do Egito, a pediculose (nome dado à infecção por piolhos) havia sido considerada rara, até que houve um novo surto causado pela resistência que os insetos adquiriram aos inseticidas, o aumento da população humana e principalmente: a mudança dos hábitos sociais e afetivos. Sim, abraços e beijinhos no rosto podem passar piolho!

O piolho da cabeça (Pediculus humanus humanus ou Pediculus capitis) é um parasita hematófago obrigatório (que se alimenta de sangue), de ambos os sexos. É diferente, por exemplo, do mosquito da dengue, onde só a fêmea quem pica. São insetos pequenos e sem asas (piolho não voa de uma cabeça para outra!). Os ovos são chamados de lêndeas e postos na base do couro cabeludo. Assim, lêndeas encontradas além de 0,7 cm do pêlo estão eclodidas ou mortas, já que elas precisam do calor da cabeça para se desenvolver. Cada fêmea bota cerca de 10 ovos por dia e 200 ovos durante toda a vida, podendo sobreviver até quarenta dias no hospedeiro. Fora do hospedeiro, tanto o piolho quanto a lêndea sobrevivem poucas horas. Um outro conceito falso em relação à pediculose é: ”quanto mais cabelo, mais piolho”. Isso é mentira, já que o piolho parasita a cabeça e não o cabelo.

Importante dizer que além das infecções secundárias, o piolho também pode veicular o tifo exantemático (Rickettsia prowazeki), febre das trincheiras (Rochalimaea quintana) e febre recorrente (Borrealia recurrentis).

  • Sintomas:

O principal sintoma é a coceira intensa, causada pela picada do piolho, que se alimenta várias vezes ao dia. Com a picada, o piolho libera saliva, o que dá origem a dermatites (infecções da pele). Além disso, a coceira faz com que o paciente (pediculose é uma doença e quem está infectado é chamado de paciente) arranhe e machuque a pele, possibilitando a entrada de bactérias na corrente sanguínea (infecções secundárias). Quando a pediculose está associada à dieta inadequada e más condições sociais, vem acompanhada também de anemia ferropriva (deficiência de ferro).

  • Transmissão:

A transmissão é feita por contato e passa rapidamente, já que os bichos são muito ativos. Apertos de mão e beijo no rosto são exemplos de contato direto, e a transmissão indireta é feita com compartilhamento de travesseiros, bonés, toalhas, escovas de cabelo, etc. A transmissão por meio de ovos é pouco provável, já que os insetos vivem pouco fora da cabeça. Mas “pouco provável” não é impossível.

  • Tratamento:

A Rose, uma das meninas que trabalham na minha casa, conta que a mãe passou Baygon na cabeça dela e da irmã, quando eram crianças! Pelo amor de Deus, não façam isso! Apesar do tratamento ser controverso, há outras formas de acabar com a pediculose sem perder seus filhos ou parar na cadeia por homicídio!
Aí você me pergunta: “Tratamento controverso? Como assim?”. Vou explicar.

Alguns pesquisadores são absolutamente contra os piolhicidas porque são tóxicos e a aplicação deles é na cabeça, uma região altamente vascularizada. Além disso, as feridas causadas pela coceira aumentam a absorção do inseticida. Por outro lado, há pesquisadores que afirmam ser impossível acabar com a pediculose sem um piolhicida, principalmente em crianças na idade escolar, que está sempre em contato com outras crianças também contaminadas. De qualquer forma, coloquei aqui alguns métodos de tratamento:

-> Catação – olhar a cabeça da pessoa e catar os piolhos e lêndeas com a mão. Mas jamais (JAMAIS) deve-se matar o bicho entre as unhas! A maior parte das doenças veiculadas por eles são causadas pelo contato com as fezes ou do conteúdo intestinal dos bichos, que fica nas nossas mãos quando praticamos tal ato. Ou você não sabia que piolho também faz cocô? O ideal é usar uma tigela de álcool pra jogar os bichos catados ou queimá-los.
-> Pente-fino – usar freqüentemente o pente-fino ajuda e muito! Sua eficácia aumenta muito mais se o cabelo estiver besuntado com óleos, cremes ou vaselina, já que os fios ficam escorregadios e os piolhos não conseguem aderir neles.
-> Ar quente – usar o secador diariamente sobre as lêndeas por alguns minutos induz suas mortes. Mas tem pouquíssima eficiência nos piolhos adultos.
-> Corte curto dos cabelos – Só tem eficácia se os pêlos forem cortados em até 8 mm a partir do couro cabeludo.
-> Raspagem dos cabelos – Muito eficaz! Porém, causa vergonha nos pequenos.

Há os tratamentos que usam medicamentos. Lembre-se sempre que a forma líquida (loção) dá melhores resultados que o xampu ou o sabão:
-> Pomada mercurial – não recomendada e altamente tóxicas.
-> Benozato de benzila (Acarsan, Escabiol, Miticoçan, Pruridol) – desaconselhado em casos de infecções secundárias no couro cabeludo.
-> Organoclorados: (lindane, hexaclorociclexano) – vários efeitos colaterais e se acumulam nos tecidos adiposos.
-> Piretróides sintéticos: Deltametrina (Deltacid), Permetrina (Kwell) e Biolatrina (Vapio) – têm pouca absorção para a pele.

Além desses há também os medicamentos por via oral, que são bastante eficientes.

Então acabamos com alguns mitos e com a mania de matar piolhos entre os dedos. Agora é hora de acabar com o surto da pediculose!

Fonte: NEVES, David Pereira, et al. Parasitologia Humana. Editora Atheneu, 10ª Edição: São Paulo, 2002.

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